jeudi 15 avril 2010

William Basinski - The Disintegration Loops (2001)




W. G. Sebald foi um escritor alemão em cuja obra a força de uma memória (seja ela pessoal ou coletiva) que nega a entregar-se derrotada é o elemento que pulsa da maneira mais perigosamente bela. Alemão de natureza, a preocupação de Sebald era fazer com que o passado só descansasse após ser atualizado uma vez que a paz com o presente tenha sido feita. Nesses termos a memória deve ser a faculdade central dos processos humanos (artísticos e científicos) até que possamos, enfim, viver o presente sem os ranços de um passado que até então padece sob o signo da culpa.

Atendo-se apenas aos seus romances de imediato percebemos o quanto suas páginas contam de história. São repletas de recortes de jornal, de pôsters de época, fotos antigas de família; estas são marcas desta história que não quer descansar, são sorrisos, homens diante de suas poderosas máquinas. Marcas e traços, pois são estas imagens a guiar um certo exílio dos personagens nos selvagens cantos do esquecimento. Selvagem, porquê no universo de Sebald todo esquecimento revela-se um equívoco passageiro, a ser dilacerado pelo ondulante movimento dessa atualização clamada. A morte apenas deixaria os vivos descansarem após que isso seja feito. Trata-se da demonstração de que toda dor engolida, toda chaga para qual fechamos os olhos, só param de latejar quando a equação com a consciência é devidamente determinada.

William Basinski é um músico americano, de formação clássica que confessa ter como influências o experimentalismo e o sentido de ambient music de Brian Eno e Steve Reich. Basinski vem produzindo música no mínimo desde 1978, seja com seu projeto Life on Mars, suas colaborações com Diamanda Galás ou Antony, seja ainda em seu estúdio de pesquisa de onde saíram grandes discos de seu projeto solo. Ao longo deste tempo uma linguagem particular foi desenvolvida, e a instrumentalização em que baseiam-se as produções acabadas do compositor é repleta de símbolos de uma melancolia desesperada por nos fazer ouvir uma história.

De modo concreto seu modus operandi trabalha essencialmente com loops (pequenos trechos de gravações – nos caso de Basinski antigas gravações encontradas, e das mais diferentes naturezas, ou simplesmente gravações feitas por ele mesmo em pleno ar) que em seguida são postos para tocar em máquinas reel to reel (magnetofone/gravador de rolo) onde são submetidos a diversos tratamentos, como processos de amplificação, repetições por cima de outros trechos, e por vezes uma sobreposição de mesmos trechos que vão amontoando-se em um mesmo curto espaço da linha de composição. Até aí nada que fuja muito de um processo criativo caro aos minimalistas, até os militantes da musique concrète tiveram muito a contribuir com este tipo de composição, alargando a organização instrumental que esta ao alcance do compositor. Com Disintegration Loops (em quatro cds lançados separadamente: I, II, III, IV), Obra com ‘o’ maiúsculo, Basinski expande estas preocupações musicais, abarca um sentimento de decadente romantismo, enfia o dedos nos medos mais primitivos do homem, nos faz pensar que iremos em algum momento desconhecido desaparecer, completamente, da face da terra.

Durante um desses movimentos de organização que fazemos de tempos em tempos em tudo que nossa simples existência faz acumular-se ao nosso redor, o compositor deparou com um conjunto de peças compostas por volta de 1982, eram diversos loops que estavam registrados em antigas e corroídas fitas magnéticas. Segundo ele próprio diz, essas peças eram carregadas de uma beleza perdida, evocavam paisagens pastorais dignas de um poema de Pope. Eram também estes fragmentos redescobertos no limo de uma caixa comprada em alguma enorme loja de departamento, o testemunho de um momento na juventude do artista, um sopro do ar de 20 anos atrás, direto no seu rosto, um tempo de antes, com seus segundos e minutos e horas, pesadíssimos como badaladas de um torre escura em um pesadelo. O próximo passo era óbvio, apressar-se em cunhar essa música em formato digital, reafirmá-la como pertencente e digna de transitar em nossos tempos, fazê-la moderna e permitir sua passagem para nossa era.

A decisão de Basinski revelou-se tragicamente fadada a novos resultados assim que a fita começou a correr. Em seu processo de salvação do que tinha sido um momento de sua vida, deste sufocante ato de fazer o passado se confrontar com seus dias de agora resultou que o artista fez sua música, sem quase nenhum trabalho verdadeiramente apto a ser chamado de composição, escancarar a verdade dos poros humanos que se alargam, alargam até o definhamento, e o enfraquecimento dos orgãos, e a pele ressecada, e os olhos cansados. O que houve foi que, no decorrer do processo de passagem das fitas analógicas para modernos aparelhos digitais, na tentativa de conservação destes antigos pergaminhos, que contavam a história de sua juventude, mas com cheiro de toda a velhice do mundo, pedaços de música iam se desprendendo da fita, repousando como matéria morta em sua mesa de trabalho.

A verdade é que o contato destas fitas guardadas por mais de 20 anos, com o cabeçote de gravação era forte demais para elas, e elas então cediam, se partindo, aos poucos. O movimento da troca já era falho por si, começava com imperfeição, porque, e Basinski soube disto desde o primeiro segundo em que deu play nesta história, nada do que foi passado para digital representava o que estava realmente guardado nas caixas, mas trazia já todo o peso do tempo, e da poeira que só ele permite que tome conta das coisas esquecidas. O processo entretanto, não foi interrompido, e pelo contrário, até o último segundo da última fita continuaram-se a desprender pedaços reais da matéria em que havia sido gravada a música. A peças por vezes de mais de uma hora respondem por isso, antigas fitas magnética sendo tocadas até o completo desaparecimento de todo traço de passado que era nelas contido.

Nas quase 5 horas que constroem essa obra o que testemunhamos é o processo de degradação de tudo pelo o quê a matéria responde. Tudo que se encontra sob este céu termina destruído como aquelas fitas, que no fim terminaram sendo jogadas no lixo. A música que podemos ouvir agora apontam, então, para uma música que não existe mais, elas tentam dar conta do que não está mais lá. E é inacreditável atenção que concedemos a estes fragmentos, expandidos ao extremos eles tornam-se peças vivas, que nos prendem nessa beleza misteriosa que os percorre ao fundo. Por vezes trata-se de um simples loop, de alguns segundos, que é repetido centenas de vezes, milhares de vezes. A resposta é clara, e digo mais uma vez. Trata-se da sensação com a qual o disco nos preenche, do início ao fim, desta morte se insinuando, destas fitas morrendo em tempo real diante de nós. E a participação de Basinski neste disco é mínima mas fundamental. O trabalho que ele se permitiu fazer, e que conjuga-se de modo harmonioso com seu papel também de espectador da natureza agindo sobre sua obra, é de uma importância imensa para o resultado final.

Orquestrações simples mas de uma beleza enorme, cada peça varia ligeiramente pouco, mas se transformam de uma maneira incrível, percussões aéreas podem ser ouvidos ao fundo, com intervalos de tempos entre si, como se fossem transmitidas de onde o ar constringe o som a se movimentar a partir de uma outra relação com o tempo, como se esta música fosse uma transmissão captada no espaço, ou dentro do mar, algo não completamente humano. Nos primeiros minutos você pode até mesmo não perceber mudança alguma, será suficiente lembrar que o maior instrumento aí é a passagem do tempo, é na verdade o poder corrosivo da ampulheta que se afina. O que estas músicas guardam de mais incrível, e que as colocam entre as mais belas coisas que já ouvi na vida, é como elas carregam em si essa potência de morte, que vai sendo desprendida à medida em que pedaços de música encapsulada se desprendem das fitas.

Mantendo-se em um registro puramente pessoal, onde Sebald procurava a atualização do passado como meio de se fazer justiça e paz com os fatos, Basinski descobriu, no interior de sua própria história que por vezes essa atualização revela-se como um mero símbolo da morte que coexiste com a vida desde o início, seus resultados são imprevisíveis, e aqui ela nos permite o confronto com a mortalidade e lança mais uma vez luz na certeza de que somos todos meio vivos, meio mortos. No mesmo ano que Basinski terminou sua sessão fúnebre dois aviões se chocaram contra um prédio nos Estados Unidos, Sebald morreu vítima de um acidente de carro, e Basinski testemunhou tudo que dele havia morrido nos últimos 20 anos.

Aucun commentaire:

Enregistrer un commentaire

Remarque : Seul un membre de ce blog est autorisé à enregistrer un commentaire.